A crise dos 40 anos e os planetas geracionais


 



    Você já sentiu como se estivesse vivendo no piloto automático, até que, de repente, algo dentro de você desperta? Uma inquietação, uma necessidade de mudança, uma busca por um propósito mais profundo? Se você se identificou e tem mais de 36 anos, muito bem, você provavelmente chegou à metanoia ou, mais conhecida como, crise da meia idade.

    Mas o que está por trás dessa inquietação? Será um sinal de crescimento? Um convite para se reinventar? Ou apenas o medo do tempo passando? E onde tudo isso se conecta com a Astrologia?

    Na perspectiva da Psicologia analítica, a Metanoia representa um período de profunda transformação interna, tanto de mentalidade quanto de identidade; é um processo de reelaboração da visão de mundo que se tinha até então em busca de uma maior integração da personalidade. Mas é importante a gente observar que nem toda crise é por si patológica, no sentido de.. quando ela vem como uma forma de deslocarmos mais nossa atenção do mundo de fora para percebermos mais o mundo de dentro. 

    James Hollis tem um livro muito interessante que se chama “a passagem do meio”, e nele faz uma ampliação das principais fases de desenvolvimento até esse período de transição: entre a primeira fase adulta, com o mundo imaginativo de possibilidades, e a velhice, o entardecer da vida, está não só a passagem do tempo cronológico, mas o questionamento atemporal da segunda fase adulta “quem eu genuinamente sou desnudando todas as camadas de experiências que fizeram parte da minha vida?”.

    Então, nós temos toda essa composição da personalidade que vem desde a infância, a gênese do complexo materno e paterno, a dependência emocional e protetiva, o início dessa percepção do eu em relação ao outro; na adolescência, esse ego sendo melhor estruturado, esse “eu” que começa a sair do núcleo familiar e ir em direção ao mundo, os sonhos alimentados por esse desejo em imprimir a marca pessoal; e depois na idade adulta, a escolha profissional e ingresso no mercado de trabalho, o compromisso afetivo e a chegada dos filhos: de uma forma ou de outra por volta dos 40 todas essas questões acabam atravessando o indivíduo ao longo da sua caminhada.

    Se a pessoa passa genuinamente por essas fases, trazendo ao exercício da consciência os enfrentamentos das projeções vividas, todas as facetas das personas que ela precisou fazer uso para estar no mundo (o papel do profissional, o papel de filho, de marido ou esposa, e tantos outros que a vida acaba nos demandando), eu acredito que no meio da vida vem o chamado ao mundo interno de forma mais branda; mas se tudo foi muito vivido no automatismo, toda a parte da vida que não pôde se expressar começa a vir à tona, muitas vezes de forma descompassada; e o ego apegado a necessidade de conforto e segurança, começa a não ter mais estratégias suficientes pra essa contenção, a pessoa passa a questionar se o ponto da vida em que ela se encontra era a que realmente ela queria estar. 

    O pensamento mágico e heroico do passado, dão lugar a esse estranhamento em ter que buscar recursos dentro de si para se viver de forma mais autêntica, tendo em vista a percepção finita do tempo: não viveremos todas as histórias que idealizamos, não conseguiremos alcançar todas as metas que um dia planejamos, mas o que de fato importa, no final das contas? 

    É comum que se viva a primeira metade da vida de modo automático e inconsciente, muitas vezes buscando a sobrevivência e mais nada. E como disse Jung , entramos na segunda metade da vida despreparados, porque o que fizemos na primeira fase já não serve mais. Então teremos que reaprender a viver.

    Coincidência ou não, nesse mesmo momento de vida, na Astrologia, passamos pelos chamados ciclos dos planetas geracionais. É quando os planetas mais lentos: Plutão, Netuno e Urano, transitando pelo céu, chegam em certos graus que provocam aspectos tensos com a posição que eles se encontram em nosso mapa natal.

    O primeiro ciclo que percebemos é quando Plutão no céu, faz quadratura, um ângulo de 90 graus com Plutão do nosso mapa. Isso ocorre a partir dos 36 anos. Plutão na Astrologia é associado ao inconsciente pessoal e coletivo. Ciclos de Plutão são um convite para darmos um mergulho nas profundezas da mente, e de lá, buscarmos a renovação e a transformação. De modo que, de volta à superfície, não somos mais os mesmos.

    Ao passar por esse ciclo começamos a pensar em projetos não realizados. Sonhos que foram engolidos... seja pela sociedade que nos inserimos, pelo dia a dia, trabalho, estudos, família. E surge uma vontade de colocá-los em ação. Mesmo que isso signifique uma mudança completa em nossas vidas. É uma oportunidade de ajustar a rota e trazer novos sentidos e significados para a nossa existência.

    Plutão traz uma verdadeira crise existencial. Uma chance de transformar padrões. Examinar o que há de certo e errado na vida. Ele traz à superfície o que está submerso, o que foi varrido pra debaixo do tapete. E pode até afetar o físico.

    Muitas vezes, acontece desse chamado não ser muito amistoso, e vir em forma de sintoma. Que vamos ignorando, até o corpo gritar. E aí já estão instaladas doenças físicas ou psíquicas, compulsões e vícios. Os sinais dos maus tratos sofridos pelo corpo já estão aí e fazem parte do chamado para a mudança.

    E, pra conseguirmos vivenciar da melhor forma esse ciclo, existem alguns cuidados que podemos tomar. É claro que aqui estamos falando de uma forma mais generalizada. E a análise do Mapa Natal de cada pessoa vai nos trazer muito mais clareza de como esse ciclo vai se dar. Mas, já sabendo q Plutão vai nos propor mudanças e transformações, podemos começar olhando pra saúde física e mental. Hora de abandonar vícios e hábitos que não estão fazendo bem p nosso corpo e mente. Fazer um check-up e já tratar qq questão que aparecer. Repensar de onde vem as crenças e padrões de comportamento que seguimos. E se eles estão realmente de acordo com nossos valores pessoais.

    Plutão vai testar sua relação com aquilo que se é apegado. Então já pode começar a faxina. Ver se está acumulando coisas, objetos, ideias e tudo aquilo que não condiz mais com sua nova versão que surgirá. Desapego é a palavra-chave. Esse período exige coragem para se reinventar e descobrir forças internas que antes não eram percebidas. É um momento de morte e renascimento, onde deixamos velhas estruturas para dar espaço a uma nova versão nossa.

    Plutão quer a sua verdade, despida do ego e vaidade. Sem máscaras. E quanto mais fiel à sua essência vc for, mais tranquila será essa passagem.

    Por volta dos 41 anos Netuno em quadratura à sua posição no Mapa Natal, dissolve um pouco a significação das coisas que estavam estabelecidas; o que esse aspecto simbólico nos traz é uma sensação contraditória de busca por um sentido em meio a um desencanto, a pessoa fica meio que sem direção, como se o caminho que ela então percorria perdesse um pouco da luminosidade.

    Netuno pra Astrologia representa esse caráter mais transcendente da experiência humana, é a percepção subjetiva da realidade que nos conecta aos sonhos, ao mundo sensível, ao psiquismo. E se torna cada vez mais um desafio, em uma sociedade essencialmente materialista, entramos em contato com esse conteúdo etéreo que fala muito mais à alma do que à razão.

    A sociedade da performance, dos encontros apressados e escuta atravessada pela urgência em se fazer qualquer outra coisa que não estar presente no clichê “aqui e agora”, é uma espécie de dessensibilização, que quando se chega por volta da meia idade, pode gerar aquela angústia pela desarmonia entre a concepção interior do eu e a personalidade adquirida, fruto de todas as experiências vivenciadas. 

    Então vem aquela agitação emocional, o desejo pelo escapismo e as fantasias de se imaginar mais feliz e completo em uma realidade diferente; muito comum a pessoa idealizar uma nova vida, um novo parceiro, um trabalho diferente, um país estrangeiro, porque é lá, contido no que eu não tenho que minha alma se sentirá realizada.

    Então, eu acho que aceitar que a vida será composta por um encadear de mortes e renascimentos, e que precisamos sustentar muitas vezes a incerteza antes de cada renascimento que a vida nos apresenta, é uma forma de permitirmos ao ego se tonar mais flexível, eu não preciso necessariamente mudar todo o entorno da minha vida, eu posso ir elaborando, acessando as partes mais sombrias que existem em mim, entendendo as minhas projeções, para aí sim entender qual o sentido primordial que sustenta todos os outros que habitam em mim.

    Então, o que te conecta com o seu sentido e o seu sentir? Muitas vezes é preciso recordar do encantamento da criança interior, e isso não significa infantilizar o adulto, é desenvolver a experiência do extraordinário que habita o ordinário. Netuno é o mundo sensível que percebemos através da música, das artes em geral, das imagens que aparecem em sonhos, da conexão de alma com o divino, tudo isso é a manifestação da transcendência, é o tempo fora do tempo, que usualmente chamamos de Kairós. 

    E, pra fechar, por volta dos 42-43 anos, Urano no céu, faz oposição, um ângulo de 180 graus com Urano do nosso mapa, é a hora de “chutar o balde”. Nessa fase muitas pessoas sentem uma necessidade urgente de liberdade, podendo mudar de carreira, relacionamentos ou estilo de vida. Urano traz uma energia de inovação.

    É a coragem que faltava pra seguir seus sonhos, mesmo que por caminhos não convencionais. É um momento de despertar, onde a pessoa se sente impulsionada a viver de forma mais autêntica e alinhada com seus desejos.

    Esse trânsito pode trazer irritação, sensação de impedimento e perda de tempo. Como se sua liberdade estivesse sendo restringida, por algo ou alguém. O que traz a impressão de que não conseguiu existir como deveria.

    Quando a pessoa está ciente de todos esses ciclos fica mais fácil identificar aquilo que precisa ser transformado e já ir tomando as providências necessárias. Então aproveite a oportunidade, seja você a protagonista dessas mudanças. Porque quando não fazemos isso, elas acabam vindo em forma de perda e rupturas bruscas. Por esse motivo, se torna importante buscar a flexibilidade, incluindo espaço na sua rotina para imprevistos e mudanças. E estar disponível pra recalcular a rota e seguir em frente.

    Estar aberto para descobrir novas paisagens, novas pessoas e novas paixões, ajuda a abrir a mente para o novo que Urano traz. Não fazer planos muito rígidos de médio e longo prazo, também é uma boa estratégia. Tendo em mente estar sempre pronto pra observar e identificar oportunidades no presente.

    Uma ferramenta interessante para os casos em que você sente que precisa fazer uma mudança, mas ainda não sabe o caminho, é fazer o uso da visualização criativa. Imaginando-se em uma situação diferente da atual e permitindo-se perceber, nos acasos do Universo, o caminho que está sendo apontado.

    Em outro momento do livro citado, James Hollis nos diz que “no meio da vida a permissão deve ser agarrada, e não solicitada; e se conseguirmos sustentar a nossa coragem ela nos trará de volta a vida depois de sermos separados dela”, em outras palavras, cabe a nós aceitarmos a responsabilidade em ir ao encontro desse lampejo primordial que sustenta nossa existência, somos convocados a realizar a grandeza de nossas vidas, mas isso só acontece quando a gente faz a alquimia da alma, transformando dor em crescimento consciente.

 


*Indicação de Leitura: Livro “A Passagem do Meio: da Miséria do Significado da Meia-idade” por James Hollis


Texto adaptado do Podcast "Astrolábia | O seu podcast de Astrololgia" disponível no Spotify.

Autoras: Lizi Liberato e Ingrid Coelho

Contatos: @_oceueeu | @_Ingrid_Coelho_ 

 

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